Uma época para intensificar reflexões e ações de amor

Bispo de Santo André, Dom Pedro Carlos Cipollini transmite sua mensagem sobre a época sagrada

 

 

Há muito sabemos sobre as reflexões que devemos fazer diariamente para sermos pessoas melhores no amor, na caridade, humildade e esperança. A Semana Santa é uma das épocas do ano que nos convida a focar o olhar para essa avaliação interior e de crescimento espiritual. Junto dela vem a Páscoa – comemorada no tradicional domingo em que a família se reúne para celebrar a ressurreição de Jesus, após três dias de sua crucificação, de acordo com o Novo Testamento.

 

 

Mas, diante desse cenário histórico e religioso, não basta pensarmos que tudo isso aconteceu e que Jesus entregou sua vida em amor a nós, mas também é necessária uma análise mais profunda sobre o que realmente envolve o feriado, a partir das nossas ações para com o outro, não tendo somente a simbologia de mais uma data para curtir um feriado de descanso, algo que também é importante, mas para um segundo plano nessa reflexão.

 

 

Temos a oportunidade de viver uma semana de pensamentos que nos alimentam para o enriquecimento da fé e da evolução para encararmos o mundo com mais amor, a partir do auto reconhecimento e da avaliação interior de tudo que podemos melhorar em nossos caminhos e para com os outros.

 

 

Geralmente, a liturgia da Semana Santa, que se inicia no domingo de Ramos – momento em que se celebra a entrada de Jesus em Jerusalém num ato extremo de humildade, nos clama a renunciarmos, inclusive a nós mesmos, libertando-se de vaidades e orgulhos e nos unindo a Cristo pela salvação do mundo, contra o pecado e tudo que impossibilite a felicidade e amor.

 

 

Em entrevista exclusiva, o Bispo da Diocese de Santo André, Dom Pedro Carlos Cipollini, traz sua mensagem sobre a época sagrada.

 

 

 

OSSEL - O que significa a Semana Santa?

Dom Pedro - A Semana Santa é para nós momento sublime no qual recordamos o Mistério Pascal (Paixão, Morte e Ressurreição de Cristo). Mais que recordar, nós o celebramos com muito amor e carinho, traduzidos na preparação que incluiu as confissões, as orações com seu ponto alto nas “24 horas para o Senhor”, e demais celebrações nas várias comunidades e paróquias.

 

 

Foto: Divulgação / Diocese de Santo André 

 

 

OSSEL - Quando a Semana Santa começa efetivamente?

Dom Pedro - A Semana Santa começa com a celebração do Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor. Nele se faz a memória da entrada de Jesus em Jerusalém com a procissão de Ramos. Os ramos para os hebreus e os povos daquela época era sinal de vitória, com eles se saudavam os vencedores. Jesus entra na cidade aclamado como messias, salvador. Porém, logo se decepcionam com ele, pois não é um messias político ou guerreiro, como a maioria esperava. Um messias guerreiro deveria usar a força, e se impor coagindo. Ele veio trazer a paz, o perdão que reconcilia, o amor que partilha a vida!  Seu messianismo foi rejeitado e continua rejeitado através dos tempos, por todas as forças opressoras, com base no poder e na dominação. É o reino do pecado contraposto ao Reino de Deus que Jesus nos traz, mas Jesus vence com a força de Deus.

 

Na Quinta-feira santa a Igreja celebra em torno do bispo na igreja Catedral a missa crismal, durante a qual os padres renovam as promessas sacerdotais e se consagram os santos óleos a serem usados no batismo, crisma, ordenações e unção dos enfermos. Jesus nos deixa o mandamento do amor, “amar como ele amou”. E a Eucaristia que é presente, memorial deste amor capaz de dar a vida. Ele ensina que o amor verdadeiro se traduz em serviço ao próximo. São Paulo narra a instituição da Eucaristia (cf. 1Cor 11,23-26). Na quinta-feira inicia-se o tríduo pascal.

 

 

Na Sexta-feira Santa recordamos Jesus que morre na cruz por nós. Este mistério é profundo e mais que todos, rejeitado pelo nosso mundo baseado na força da técnica, e no poder econômico que tudo subjuga. É na cruz que temos a salvação e a vida porque a cruz é o máximo sinal do amor, amor que é a “morte da morte”. É dia de oração e jejum para os católicos. No Sábado santo a Igreja passa à beira do túmulo de Jesus, refletindo, meditando e rezando este acontecimento.

 

 

Vigilante, a Igreja aguarda a luz de Jesus Ressuscitado. Na Vigília Pascal e no Domingo de Páscoa celebramos a vitória do amor, a vitória da cruz: “Vitória tu reinarás, ó cruz tu nos salvarás”, é o amor que salva. Ele se humilhou e obedeceu (ouviu a voz do Pai e nela perseverou, não levando em conta as consequências), até a morte e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou. A festa da Páscoa renova nossa esperança para caminharmos de esperança em esperança, até o fim dos tempos.

 

 

O Domingo de Páscoa encerra a Semana Santa e dá início ao que São João chama de “primeiro dia da semana”(cf. Jo 20,1), o dia sem fim, no qual a criação renovada por Cristo não terá mais noite. O dia de domingo é o dia que ilumina toda a semana, pois nele vivemos todo o mistério Pascal de Cristo e da Igreja.

 

 

OSSEL - Que ações devemos ter durante a Semana Santa?

Dom Pedro - Todo cristão pode percorrer o caminho com Jesus. Que caminho? O caminho até “Jerusalém”. A cada Semana Santa vivida de coração sincero é a oportunidade de se compreender “o caminho” que Jesus Cristo nos apresentou e continua a nos apresentar. Fazer a experiência do Mistério Pascal. Um mistério profundo, quase incompreensível para o ser humano. De um Deus que sofre, que se sente abandonado, mas ao mesmo tempo um Deus que é de uma entrega completa de amor. De uma confiança absoluta: “Pai em tuas mãos entrego meu espírito”.

 

 

Antes de chegar nesta grande semana houve uma preparação. O período conhecido como Quaresma, que iniciou na Quarta-feira de Cinzas e se estende a até a quinta-feira Santa. Os textos litúrgicos da celebração Pascal mostram quais os passos que Jesus vai dando neste período e apresenta uma reflexão de como nós cristãos devemos seguir estes passos de Jesus.

 

 

São muitas as atitudes que geram as ações durante a Semana Santa, podemos destacar: abertura, escuta, entrega, autocrítica, benevolência, perseverança, paciência. Tudo isso temperado com a virtude da Fé, assim, percorrer este caminho terá o sentido certo e a cada ano a maturidade neste itinerário será alcançada.

 

 

 

OSSEL - Qual a simbologia da cruz?

Dom Pedro - Podemos contemplar a cruz e percebemos a riqueza de sua simbologia. Ela é símbolo do amor de Deus para com seu povo. “Com efeito, a linguagem da cruz é loucura para aqueles que se perdem, mas para aqueles que se salvam, para nós, é poder de Deus” (1Cor 1, 18), como foi para o centurião, que reconheceu o poder de Cristo crucificado. Ele vê a cruz e confessa que é um trono; vê uma coroa de espinhos e reconhece um rei; vê um homem com os pés e mãos cravados e invoca um salvador. Por isso, o Senhor ressuscitado não apagou de seu corpo as chagas da cruz, mas mostrou-as como sinal de sua vitória. (cf. Jo 20, 24-29).

 

 

Jesus disse: “Como Moisés levantou a serpente no deserto, assim é necessário que seja levantado o Filho do Homem, para que todo aquele que crer tenha nele vida eterna” (Jo 3, 14-15). Ao ver a serpente, os feridos de veneno mortal ficavam curados. Ao ver o crucificado, o centurião pagão tornou-se crente, e assim através dos tempos.

 

 

A cruz ensina aos seguidores de Cristo assumir sua dignidade, ou seja, ensina qual é a real identidade. O madeiro horizontal mostra o sentido do caminhar de todo cristão, ao qual Jesus Cristo se uniu fazendo-se igual em tudo, exceto no pecado. O madeiro que suportou seus braços abertos ensina a amar os outros com a si mesmo. E o madeiro vertical ensina qual é a  destinação da humanidade: a Trindade que a criou por amor, isto é, a cruz recorda o amor Divino, “Pois Deus amou tanto ao mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna”. (Jo 3, 16)

 

 

 

OSSEL - Fale um pouco sobre o Mistério Pascal?

Dom Pedro - O Mistério Pascal de Cristo nos direciona ao querígma de fé. O querígma significa proclamação ou anúncio. É o anúncio da “Boa-Notícia” realizado pelos Apóstolos, ou seja, é a primeira proclamação da Boa-Nova do acontecimento Jesus de Nazaré, realizado na força do Espírito Santo. “Cristo morreu pelos nossos pecados, foi sepultado, ressuscitou ao terceiro dia, segundo as Escrituras. Apareceu a Cefas e depois aos doze. Em seguida apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, a maioria dos quais ainda vive, enquanto alguns já adormeceram”. (1Cor 15,3-7)

 

 

Esse anúncio tem por objetivo suscitar a fé e a conversão a Cristo. Assim, comunicar a Boa-Nova da salvação com alegria e confiança é fazer pastoral. Com esse primeiro anúncio se abre a porta de entrada da experiência cristã. Durante a quaresma, no tríduo Pascal, no tempo Pascal e no decorrer de todo ano litúrgico temos a oportunidade de fazer a experiência deste profundo Mistério, que é vivido em todas as missas celebradas.

 

 

 

OSSEL - Qual a mensagem que Jesus traz para seus filhos no Domingo de Páscoa? Existe alguma diferença da Sexta-feira Santa?

Dom Pedro - Primeiramente não somos filhos de Jesus, mas sim irmãos do Senhor Jesus, filhos de um mesmo Pai no Espírito! No Domingo de Páscoa se celebra a ressurreição de Jesus Cristo. A vida em plenitude resulta de uma existência feita dom e serviço em favor dos irmãos. Cristo é a confirmação de tudo isto.

 

 

Ele “passou pelo mundo fazendo o bem” e, por amor, Se deu até à morte; por isso, Deus o ressuscitou. Os discípulos, testemunhas desta dinâmica, devem anunciar este “caminho” a todos os homens. Pelo Batismo, revestidos de Cristo, somos convidados a continuar a caminhada de vida nova, até à transformação plena, ou seja,  quando pela morte nós tivermos ultrapassado a última fronteira da nossa finitude.

 

 

A Sexta-feira Santa é para o povo cristão dia de penitência e até tristeza. Celebramos especialmente “o dia em que o Esposo foi tirado”. Prolongamos a lamentação daquele que “veio para o que era seu, mas os seus não o receberam”; celebramos a Paixão do Senhor. A liturgia, no entanto, não pode fazer deste dia um dia de luto e tristeza, pois já cantamos, neste dia, a Páscoa da cruz: a vitória do Amor e a glória daquele que se fez por nós obediente até a morte e morte de cruz. Sendo, assim, compreende-se está ligação profunda que cada dia do tríduo tem um com o outro.

 

 

 

OSSEL - Que lições devemos aprender e passar adiante a cada Semana Santa que vivemos?

Dom Pedro - A Páscoa é celebrada com amor e fé por todos os cristãos, mesmo porque ela é a vitória do amor de Cristo que passou pela Cruz. Jesus trouxe à terra o amor de Deus. O local que foi possível mostrar este amor foi a cruz. Passando, pois, por ela, Jesus venceu. Morreu, mas a morte foi derrotada porque o amor é mais forte do que a morte.

 

 

A Páscoa é para nós cristãos, o núcleo da nossa fé: se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa fé! Assim, todos nós sabemos que passamos da morte para a vida que não tem fim. Na ressurreição, nossa vida ferida pela morte é reconstruída por Deus, que nos dá uma vida nova e transformada totalmente: a vida eterna! A fé na ressurreição nos dá a alegria da vitória de Jesus Cristo e vitória nossa também, porque, se com Ele sofrermos, com Ele também ressuscitaremos.

 

 

A fé na ressurreição nós ajuda a vivermos o dia a dia, ao celebrarmos as pequenas e grandes vitórias sobre o mal, ao vencermos o egoísmo, a trabalharmos para que a justiça e a paz reinem entre nós. São muitos os gestos que preanunciam a vitória Pascal. Um deles é a solidariedade que nos leva à partilha e união entre nós. Multipliquemos, portanto, os gestos “pascais”, ou seja, tudo aquilo que sinaliza a vitória da Cruz, a vitória do amor capaz de dar a vida.

 

 

OSSEL - O Ovo de Páscoa tem alguma representação religiosa?

Dom Pedro - Do ponto de vista de várias culturas, o ovo é considerado símbolo do nascimento e da vida. Assim foi adotado também na Religião. A relação com a Páscoa, comemorada pelos cristãos, está a partir da Ressurreição de Jesus Cristo, que representa a esperança de uma nova vida para toda a humanidade.

 

 

Presentear as pessoas com ovos é um costume antigo. Durante as festividades realizadas com a chegada da Primavera, depois do Inverno, os ovos (de galinha) eram cozidos e pintados com desenhos que lembravam plantações e outras figuras relacionadas à colheita. A esperança de fertilidade do solo e de abundantes colheitas eram representadas com a troca dos ovos coloridos.

 

 

Atualmente, percebe-se o caráter comercial muito forte ao redor dos chamados ovos de Páscoa. Não se consegue mais ver neles a relação com o sentido que os cristãos dão para a vida em Cristo Jesus.

 

 

Fonte: 

Dom Pedro Carlos Cipollini - Bispo da Diocese de Santo André

Contato: 44692077

 

 

 

 

 

 

 

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