Luto coletivo vai além da dor e protagoniza como ato de humanidade

Para especialistas, comportamento ajuda amenizar o sentimento de perda individual

 

 

Vinte e cinco de janeiro de 2019. Mais uma data que ficará na memória da sociedade e, em especial, na população de Brumadinho, que viveu tamanha tragédia ocasionada pelo rompimento da barragem na Mina Córrego do Feijão, em Minas Gerais, resultando num histórico chocante de mortos, feridos e desaparecidos.

 

 

Enquanto bombeiros lutam para salvar vidas, familiares e amigos vivem um misto de desespero, dor, expectativas e sinais de tempos difíceis, um verdadeiro luto coletivo.

 

 

Mas o luto coletivo é diferente daquele vivido quando perdemos uma pessoa querida numa ocasião particular e de menor proporção que a de Brumadinho?

 

 

A  doutora em Psicologia pela USP (Universidade de São Paulo) Ivete de Souza Yavo ressalta que em ocasiões coletivas de morte, como no caso de Minas Gerais, se destaca o espírito de humanidade, o que ajuda muito no processo individual que acontece ao mesmo tempo em que todos sofrem com o fato e externizam publicamente suas expressões de dor, choro e desespero.

 

 

“Enquanto se ajudam na busca por familiares e amigos, na recuperação de pertences e abrigo, as pessoas compartilham esse luto. Mas quando estão sozinhas, em suas respectivas intimidades, é dada a hora de viver o luto individual, o que chamamos de processo de elaboração do luto, algo muito íntimo, que requer cuidados e respeito por parte de quem está perto”, detalha a psicóloga.

 

 

Não se pode mensurar como serão as reações de luto, mas é fundamental a presença de pessoas queridas ao lado de quem está sofrendo, para que não ocorra o isolamento. “Não existe um tempo certo para começar e terminar o luto. Em alguns casos é indicado o acompanhamento de um terapeuta como força para entender o que aconteceu e dia a dia amenizar a intensidade do luto”, reforça Ivete.

 

 

Há quem não entenda os sentimentos e algumas atitudes das pessoas que estão passando pela dor da morte, mas o importante é ter paciência e não criar um clima de pressão, que pode piorar o sofrimento. “Posso viver enlutado por um ano, tendo uma vida normal de trabalho, estudos, saudades, lembranças e dedicação àqueles que estão presentes, mas é preciso viver um dia de cada vez, sem cobranças. Não é feio chorar, dizer que está sofrendo e muito menos se eximir de falar sobre a morte. Ela vai existir e teremos que nos preparar para viver o luto”, explica a doutora em Psicologia.

 

 

A mestre em Psicologia clínica do LELu (Laboratório de Estudos sobre Luto), da PUC-SP (Pontifícia Universidade Católica de São Paulo), Mariana Sarks Braz, lembra que o profissional que atende as pessoas que vivem a dor da morte precisam ter muito preparo técnico e que possa se cuidar também.

 

“Lidar com a finitude do outro pode nos fazer pensar em nossa finitude e de nossos entes queridos. A forma como cada pessoa vive este processo deve ser enxergada e alinhada. É muito importante que a sociedade não imponha regras sobre como cada um deve viver a sua perda. Mais do que dizer o que o enlutado tem que fazer ou falar, é necessário acolher e escutar, respeitando tempo e limite do outro e trabalhando para que ele se permita sentir o que estiver sentindo. Essas atitudes proporcionam um reconhecimento da perda do ente querido, o que pode gerar segurança e acolhimento” ressalta Mariana Sarks Braz.

 

 

No caso da tragédia de Brumadinho, a profissional pontua ainda que as pessoas não tiveram a oportunidade de se despedir e isso pode ocasionar um luto complicado para essas famílias e amigos. “Foi um evento inesperado e violento visto a forma como ocorreu. Além disso, nem todas as pessoas, até agora, tiveram o seu familiar morto encontrado, o que pode gerar um luto ambíguo, pois com isso não há possibilidade de realização de rituais como velório, sepultamento ou cerimônia de cremação. Considerando a forma, extensão e número de mortos, os familiares podem passar por um processo de desorganização importante, pois tudo o que compreendem no mundo não responde às suas indagações frente ao que ocorreu. O luto acaba sendo um processo de reconstrução de significados, relações e identidade. Mais importante do que pensar no tempo no luto é perceber como este está sendo vivenciado e a repercussão da perda na vida do enlutado”, conclui a psicóloga.

 

Fontes:

 

Ivete de Souza Yavo

Doutora em Psicologia.

​Contato: ivete.souza@uscs.edu.br

 

Mariana Sarkis Braz

Psicóloga e Mestre em Psicologia Clínica, Terapeuta Familiar Sistêmica, especialista em Psicologia Hospitalar e em Teoria e Prática do Luto.

​Contato: marisarkis@hotmail.com

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