Bateu saudade. E agora?

Nos bons ou maus momentos da vida ela sempre está presente

 

 

Ah... me bateu uma saudade... Que sentimento é esse afinal? O que deixa nossos corações em explosão ou em aperto quando a saudade chega? Muitas podem ser as razões para viver essa espécie de “ausência da presença” de uma pessoa, de um local ou de um momento importante da vida.

 

Em entrevista ao site, o doutor em Psicologia da Saúde, pela Umesp (Universidade Metodista de São Paulo), Cesar Roberto Pinheiro, detalha um pouco sobre esse sentimento que está presente em nós desde os primeiros momentos de vida.

 

 

 

OSSEL - Dr. quando acontece a saudade na vida das pessoas?

Pinheiro - Saudade é um sentimento que faz parte da natureza humana. Caracteriza-se por uma espécie de “ausência da presença”, seja, de uma pessoa (por exemplo, um familiar falecido) de um local (a sua primeira escola) ou de um momento importante em sua história de vida (infância ou adolescência).

 

 

 

OSSEL - Em qual idade realmente percebemos e identificamos a saudade?

Pinheiro - John Bowlby, psicólogo e psiquiatra inglês, em suas pesquisas verificou que a forma como a família estabelecia vínculos entre seus membros, estava diretamente relacionada ao desenvolvimento saudável ou patológico do ser humano. Logo uma vinculação saudável, por exemplo entre mãe e bebê, é de fundamental importância para o desenvolvimento da criança. Considerando tal postulado, pode-se dizer que o sentir saudade guarda uma estreita relação com vinculação afetiva. Sentimos saudade porque estamos vinculados afetivamente a alguém. O próprio Bowlby refere-se à ansiedade da separação, a qual diz respeito a situação onde a criança não se encontra na presença da figura principal de apego (por exemplo, quando é deixada sozinha pela primeira vez na escola). Em função deste distanciamento aparecem sentimentos como ansiedade e medo. Podemos dizer que a saudade surge exatamente aí. A ausência da figura de apego configura uma sensação desagradável, como se a criança tivesse sido abandonada. Não é incomum ouvir de crianças quando reencontram a mãe no portão da escola, no momento de sair, a seguinte frase: Mãe, eu ‘tava’ com muita saudade de você! Portanto a saudade está presente no desenvolvimento humano desde muito cedo.

 

 

 

OSSEL - O que nos faz sentir saudade?

Pinheiro - Sentir saudade pode ser algo positivo ou negativo. Ela pode ser positiva na medida em que as memórias sobre o ambiente familiar, as amizades, os primeiros relacionamentos entre outros, tornam-se fatores de motivação para continuarmos vivendo de forma saudável. Todavia quando negativa, a saudade gera um estado de sofrimento psicológico, de tristeza e principalmente de inércia, paralisando as vivências do ser humano e estabelecendo assim um processo de adoecimento.

 

 

 

OSSEL - A saudade “sufoca” o coração?

Pinheiro - A canção gente humilde de Vinicius de Moraes, Chico Buarque e Garoto em seu primeiro verso diz: “Tem certos dias em que eu penso em minha gente, e sinto assim todo o meu peito se apertar...” É a mais perfeita descrição da saudade que “sufoca” o coração. Mas por que isso acontece? Do ponto de vista fisiológico o corpo humano produz determinadas substâncias químicas (hormônios e neurotransmissores), responsáveis pela sensação de bem-estar além de auxiliar na formação de vínculos afetivos, objetivando a manutenção das relações com outras pessoas. Relacionar-se com alguém que de fato amamos eleva os níveis dessas substâncias. Desta forma pode-se pensar que um rompimento abrupto nestes relacionamentos (por exemplo, a perda de um ente querido, o fim de um namoro, sair da sua cidade natal...) pode causar um significativo impacto psicofisiológico na pessoa, provocando uma condição de mal-estar. Então o “sufocar” que sentimos mediante este tipo de saudade é um mecanismo ao mesmo tempo psíquico e fisiológico. Enlutar-se é uma resposta normal e saudável mediante à perda de um ente querido. Isto implica um processo onde ocorre a expressão da dor em função da perda, da necessidade de reajustar-se, bem como de estabelecer novas relações. Portanto a ausência da presença da pessoa amada, ou seja, sentir saudade, é parte do luto. Porém quando as estratégias de enfrentamento da perda são limitadas, surgem sintomas vinculados à negação da morte, isolamento, a raiva pela perda, sentimento de culpa e a não resignação. Esse sofrimento pode ocasionar um enlutamento irracional ou mal adaptativo.

 

 

 

OSSEL - Com o tempo, como esse comportamento passa a se apresentar nas pessoas?

Pinheiro - Elizabeth Kübler-Ross, psiquiatra suíça, ao discutir a morte, de alguma forma fornece indicativos sobre como as pessoas lidam com o luto. Primeiro os familiares negam e buscam isolar-se, não aceitando o apoio e acolhimento ofertado pelos amigos. Posteriormente demonstram sua raiva, revolta e ressentimento pela perda. Num terceiro momento tendem a culpar-se: “Deveríamos ter feito alguma coisa antes. Quem sabe ele não tivesse morrido”. Em algumas circunstâncias aqui ocorre o adoecimento do enlutado, especialmente do ponto de vista emocional como num processo depressivo. Passadas essas etapas vem a aceitação. Compreende-se que foi feito todo o possível, desta forma passa a lidar de maneira saudável com a perda. Neste momento entra a saudade, como um ato memorial, quando as pessoas se reúnem em família, relembram da pessoa que faleceu e narram suas histórias, reveem suas fotos, comentam como ela lidaria com determinada situação se estivesse presente.

 

 


OSSEL- É bom sentir saudade?

Pinheiro - Sentir saudade pode ser algo positivo. Desta forma podemos introduzir o conceito de nostalgia. A palavra tem sua origem no grego nóstos (reencontro) e álgos (dor, sofrimento). Logo, a nostalgia é uma espécie de idealização da saudade, a qual surge a partir de memórias do passado associadas ao desejo de regressar, de voltar naquele tempo. Uma pessoa fica nostálgica por exemplo ao sentir o aroma de um perfume e lembrar-se de alguém especial que usava este e dos momentos que juntos viveram; ou ainda sente nostalgia quando vê crianças brincando na chuva e lhe vêm a lembrança de suas experiências vividas na infância. Esta saudade é boa, pois auxilia a lembrar o que já se foi, o que se tinha, o que já se viveu; leva a uma retrospectiva de vida e a aprender com ela.

 

 

 

OSSEL - Como avaliar a emoção das pessoas quando elas conseguem matar a saudade?  E quando não, pode virar uma depressão?

Pinheiro - O termo matar a saudade vem do senso comum. A psicologia apresenta ele como uma estratégia de enfrentamento, ou seja, a forma como eu lido com a manifestação da saudade. Existem as estratégias salutogênicas (saúde) e as patogênicas (doença). Matar a saudade de forma saudável seria por exemplo marcar um encontro para rever amigos e amigas que você não vê há muito tempo; voltar a sua cidade natal; conversar sobre as perdas sofridas seja através da morte ou de outras circunstâncias. Porém a saudade pode tornar-se patogênica, por exemplo, desencadeando uma depressão.

 

 

 

OSSEL – Quais são suas dicas para conviver bem com a saudade?

Pinheiro - Permita-se sentir saudade – boas memórias funcionam como elementos de motivação para futuras vivências; Mude seu foco – procure distrações que gerem a sensação de prazer e bem-estar, que sejam similares as que pessoa amada despertava em você. Chore – expressar de forma concreta a saudade sentida. Isto associado à outras práticas proporciona alívio e retomada do equilíbrio vital. Pratique o mindfulness (atenção plena). O mindfulness é um processo de treinamento de qualidades de atenção ao momento presente. Através dele aprendemos a avaliar nossos pensamentos, perceber nossas sensações e emoções no momento que ocorrem, sem atuar de modo automático ou habitual. Desta forma aprimoramos nossa capacidade de escolha, de forma mais consciente e funcional, influenciando de modo positivo nas estratégias que usamos para lidar com os desafios cotidianos. Conviva – Ter amigos por perto pode ser uma ótima tática para enfrentar os pesares que saudade nos causa em algumas circunstâncias. Cuide de sua alimentação – a saudade quando não enfrentada de forma adequada, potencializa a ansiedade humana. Uma boa forma de reduzir a ansiedade é ter uma alimentação saudável.

 

 

 

Fonte:

 

Cesar Roberto Pinheiro - Doutor em Psicologia da Saúde e Mestre em Psicologia como Profissão e Ciência.

 

Contato: atendimento.psicologico@outlook.com

Gostou do artigo? Compartilhe:
Facebook
WhatsApp
LinkedIn
Email
Twitter
Pocket
Imprimir

GARANTA UM FUTURO SEGURO E TRANQUILO PARA QUEM VOCÊ AMA